Rosilda

Rosilda

Saindo de Manaus, são 16 horas em lancha até Manicoré, seguindo pelo Rio Madeira. Dali, ainda leva duas horas de voadeira, até chegar ao Igarapé Capanã. E aí sim: bem fundo na Amazônia, onde o horizonte é todo verde, no entorno de um lago grande e bonito – embora seco, mais seco do que jamais esteve –, chega-se a uma pequena casa de madeira. Em frente à porta, está Rosilda Cordeiro Leite, 41 anos, feliz e ansiosa para mostrar as melhorias em sua moradia: em agosto de 2024, foi instalado ali um Sistema Pluvial Multiuso Autônomo, sistema domiciliar de captação e reserva de água de chuva, uma das tecnologias integradas ao Programa Cisternas. Agora, Rosilda e família têm acesso à pia para lavar alimentos; a louça suja já não acumula; as crianças já não sofrem com os frequentes problemas intestinais; tem chuveiro para tomar banho e vaso sanitário com descarga e fossa; além de água para irrigar a plantação de subsistência – macaxeira e banana, principalmente.

“Ajudou muito. Quando a gente chegava do trabalho, tinha que ir até o porto, pegar água para tomar banho. Meus filhos iam para a escola de manhã e tinham que tomar banho na beira [do lago]. Hoje em dia, não: eles já tomam banho em casa. Tem bastante água”, comemora Rosilda. 

Ela conta que, para conseguir acesso a esses benefícios, precisou participar de reuniões e fazer um cadastro – tratava-se do Cadastro Único, porta de entrada aos direitos sociais no Brasil. Quem organizou todo o processo foi a Associação dos Produtores Rurais de Carauari (ASPROC). O Programa Cisternas é gerido, territorialmente, por uma série de organizações parceiras, dando continuidade a seu perfil comunitário – desde o início foi assim, uma tecnologia social que começou em ações da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), e depois se transformou em política pública encampada pelo governo federal a partir de 2003.

“Tive que participar de uma reunião na comunidade da Ponta do Campo. A gente vai de rabeta daqui, é uma hora e pouco para chegar lá. Eu participei da reunião e gostei muito do que a Rose [integrante da ASPROC] colocou. E eu consegui fazer meu cadastro. Aí quando teve outra reunião, na Comunidade da Ilha, eu participei por dois dias da reunião lá […] Quando chegou o material [para a construção do Sistema Multiuso], eu saí às 6h da minha casa, voltei às 21h, conseguindo ajudar o pessoal, a gente tudo reunido tirando os materiais de lá – foi tijolo, seixos, essas coisas. E eu lá no meio, ajudando, porque eu estava muito feliz de receber esses materiais, porque eu sabia que iam construir na minha casa”, lembra Rosilda.

Com a construção do sistema, a vida ficou mais fácil, sem perda de tempo para se conseguir água de qualidade e sem o esforço de carregar baldes do rio até em casa diariamente. Rosilda agora aproveita o tempo junto aos filhos e à natureza exuberante da Reserva Extrativista do Lago do Capanã Grande, onde vive. “O que tem de melhor aqui? É muita coisa, não posso nem explicar. Tem tanta coisa de bom… mas é principalmente a natureza. É bastante alegre. É um lugar calmo, que a gente quase não vê violência. E é onde a gente tira o peixe, o pão de cada dia da gente. Tem jatuarana, tucunaré, tambaqui, jaraqui e muitos outros peixes…”.