Em duas horas, a água já havia subido “meia parede”. Em pouco tempo, Milene da Silva, 27 anos, que mora no segundo piso de uma casa, logo acima da residência de sua mãe, percebeu que a saída pelo térreo seria impossível. Sobrava uma alternativa: escapar pelo telhado. Assim, ela, seu filho e a mãe aguardaram para serem resgatadas – um drama similar ao de diversas famílias gaúchas atingidas pelas enchentes históricas de maio de 2024.
Milene trabalha no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) em Porto Alegre, como cadastradora do Cadastro Único. Cabe a ela incluir pessoas em vulnerabilidade, por meio do sistema, em uma vasta rede de políticas públicas. Portanto, apesar de ser uma das atingidas pela tragédia e ter ficado sem casa, em menos de um mês voltou ao batente – era o que a situação demandava: “Eu fiquei 29 dias em um abrigo, sem trabalhar. Dali eu consegui ir para uma casa de parentes, que foi cedida. Fiquei duas semanas lá. Trabalhei no CRAS da Lomba do Pinheiro, com o Cadastro Único – não deixei de trabalhar, de ajudar as pessoas. Era muito movimento. Depois passei a trabalhar aqui, na frente do CRAS, em barracas da Prefeitura. Trabalhei em ônibus da Defensoria Pública, trabalhei em um CTG [Centro de Tradições Gaúchas, que virou ponto de apoio]”, relata.
Segundo Milene, nesse período, a demanda de trabalho triplicou. Afinal, para acessar os benefícios dos governos municipal, estadual e federal, as pessoas que tiveram as casas atingidas precisavam estar inscritas no Cadastro Único. “Pessoas que nem sabiam do Cadastro Único, a partir da enchente de maio, começaram a ver a importância. Não só para o Bolsa Família, mas para os benefícios do governo, como foi cedido no tempo da enchente”.
Apesar das perdas materiais e da tristeza – “a maioria das pessoas só chorava, desesperadas porque tinham perdido tudo”, conta –, Milene demonstra gratidão pela solidariedade recebida de todos os brasileiros nesse período. Ela elogia a Força de Proteção do Sistema Único de Assistência Social (FORSUAS), força-tarefa do governo federal para atender a emergência: “Foi um apoio muito bom, na hora que a gente mais precisava. Acho que só nós, do Cadastro Único, não teríamos conseguido. Foi muito movimento, muito trabalho, muito esforço”.
Ela relata ter recebido colegas da assistência social de diversas partes do Brasil, como do Rio de Janeiro e do Ceará. Além disso, lembra que o seu próprio resgate e de sua família foi feito por pessoas de outros estados. Mais forte que a lembrança do medo é a memória da solidariedade; é esse o espírito que move as políticas de assistência social no País, uma política pública que é feita por pessoas: “Tem que se sentir forte para acolher as pessoas. Eu gosto do que faço. Eu, Milene, tenho paixão por ajudar o próximo”.