Para ir buscar água, o melhor era ir cedo, antes do sol estar alto. Faz muito calor. No período seco, tinha que se caminhar ainda mais longe; a margem se mudava lá para adiante. E tudo isso que se andava indo, tinha que voltar depois – já com os baldes cheios d’água. Não era uma rotina fácil, mas era assim o dia a dia de Maria Angélica Doce Pereira, 30 anos, moradora há quatro anos da comunidade São Raimundo, na Reserva Extrativista do Lago do Capanã Grande, no Amazonas. A mesma rotina se repetia para muitas das mulheres da região: “Antes a gente lavava vasilhas e a louça tudo lá embaixo. Com a seca, ficou muito longe o rio. Seria mais trabalhoso ter que ir. Até devido ao calor, ao sol, as pessoas precisam fazer as coisas cedo”.
Mas isso mudou quando foi instalado, no centro da pequena comunidade, perto da escola e do campo de futebol, o Sistema Pluvial Multiuso Comunitário, uma das tecnologias de captação e tratamento de água do Programa Cisternas. Com ele, a água chega agora até as torneiras das casas, nas cozinhas e nos banheiros. “Isso facilita muito a vida, principalmente da gente que trabalha em casa. A gente lava louça, a gente pega para fazer comida, que é uma água tratada. A gente lava roupa… É multiuso, tudo que a gente vai fazer que precisa de água a gente utiliza a do sistema”, completa Maria Angélica.
Inicialmente voltado ao Semiárido, o Programa Cisternas se espalhou e chegou, em 2012, à Amazônia. Ali, o problema não era exatamente a falta de água, mas sim a de saneamento: “O projeto foi criado por conta disso. Por conta de as pessoas não terem um local adequado para fazer as suas necessidades. Foi bastante importante. Antes existia mais; hoje, a gente quase não vê as pessoas adoecendo por causa de [falta de] tratamento de água”.
Para participar do programa, Maria Angélica conta que precisou estar inscrita no Cadastro Único e ter casa própria. Quando construiu sua casa, o banheiro foi erguido com fundos do programa e conectado diretamente ao sistema comunitário. “Ter um banheiro dentro de casa é muito importante e útil. E também é higiene, né? Antes era bem difícil. Porque a água vem [nos tempos de cheia] e como as pessoas vão fazer suas necessidades? Isso traz um benefício muito grande para gente aqui”.
Economia do tempo das mulheres, melhorias na higiene e na saúde, acesso permanente à água de qualidade dentro da própria casa – por tudo isso, Maria Angélica afirma, confiante: “Não é nem bom ter o sistema para abastecer as casas: é ótimo a palavra certa”.