Ana Cláudia

Ana Cláudia

“Já pensou? 3h da manhã tu acordar com a água pelo pescoço dentro de casa? Isso não é vida. E tu perder toda a tua história ali dentro…”. Ana Cláudia da Silva, moradora de Alvorada, município vizinho a Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, contou ter vivido um filme de terror durante as enchentes históricas de maio de 2024. Ela, sua filha, seus dois filhos autistas, as doze sobrinhas – uma delas grávida –, as duas irmãs e a mãe precisaram ser realocadas porque as três casas onde vivem foram invadidas pelas águas. “Na rua onde eu moro, não tem boca de lobo. A água começou a entrar pelo banheiro. Entrou pelo banheiro, pelo ralo da cozinha e pela fossa. Quando vi, já estava subindo”.

Nesse momento de desespero, Ana Cláudia diz ter encontrado no Centro de Referência da Assistência Social (CRAS) uma ilha em meio ao tsunami – um lugar para refúgio e ajuda. “Ainda bem que tinha o posto aberto para ajudar a gente”. Ali, ela conseguiu apoio material, como doações de comida e cobertores – ou, no mínimo, encaminhamento para locais que estivessem fazendo entregas – e ajuda para acessar direitos naquele momento de emergência. Por exemplo, a equipe do CRAS a ajudou no preenchimento do formulário de solicitação do Auxílio Reconstrução, apoio financeiro de R$ 5.100 pago pelo Governo Federal às famílias desabrigadas no Rio Grande do Sul. A crise climática, que atinge especialmente as famílias mais pobres, exigirá cada vez mais das políticas de assistência social, que precisam ser robustas.

Mas mesmo antes da tragédia o CRAS já servia como este lugar de suporte. Por meio desse equipamento social, Ana Cláudia acessou uma série de benefícios, seus e de seus filhos, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e o Auxílio Gás. Também ali ela conseguiu fazer o documento de identidade dos filhos e sua carteira de trabalho. “Tudo elas me mostraram, tranquilamente, o que a gente tinha direito. Daí foi abrindo portas, eu fui vendo de outro jeito. Tudo tem solução, e as gurias foram me mostrando a solução”.

As “gurias”, no caso, são as assistentes sociais do CRAS. Para Ana Cláudia, “elas são mil”: “As gurias estão sempre aqui para ajudar, elas passam auto-estima”. E, no meio do filme de terror – quando o nível da água baixou, possibilitando a volta à casa, ainda foram mais vinte dias sem água encanada e sem energia elétrica –, um sopro de vida. A sobrinha de Ana Cláudia que estava grávida ganhou seu bebê no dia 24 de maio, cerca de um mês depois do início da tragédia. Assim como o CRAS e toda a rede protetiva da assistência social no Brasil, a criança é símbolo de esperança – e sinaliza que é preciso seguir, cuidar e reconstruir.